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quarta-feira, 13 de março de 2024

Natal está mais quente e perdeu 50% da vegetação nos últimos anos

Rua João Pessoa, no bairro da Cidade Alta, centro de Natal, área identificada como ilha de calor pelo estudo I Foto: Mirella Lopes


Entre 1984 e 2013, Natal perdeu mais da metade de sua área verde, o que deixou a cidade entre 0,9 0C e 1,50C mais quente, segundo o professor do IFRN (Instituto Federal do Rio Grande do Norte), Malco Jeiel, que é geógrafo e doutor em Climatologia pela Universidade Autônoma de Madrid.

As imagens de satélite demonstram uma notória redução da área verde, primeiro fator a influenciar no aumento de temperatura de uma cidade. O IPCC [sigla em inglês para Intergovernmental Panel on Climate Change, ou Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em português], que é formado por mais de 50 cientistas do mundo inteiro, inclusive do Brasil, que produzem estudos constantemente sobre aquecimento global, diz que a temperatura do planeta aumentou entre 0,70C e 0,80C... e olha o efeito que já dá", alerta o pesquisador, que planeja atualizar os dados do estudo até o meio deste ano.

Segundo o professor, "o efeito climático, com o aumento de um ou meio grau a gente pensa que é pouco, mas não é não, porque a escala é exponencial para o ambiente como um todo. Por exemplo, o Brasil trabalha como agronegócio e quando o planeta vai aquecendo, tem que haver pesquisa de melhoramento genético da planta para se tornar mais resistente a mais um grau, o café...é a mesma coisa. O aumento de meio ou 10C é muito preocupante, tanto é, que o gatilho para o IPCC é 1,50C, passou disso, a situação é considerada irreversível”.

Área verde - mapa de Natal

Nos mapas a seguir, é possível observar a evolução de ocupação do território de Natal entre os anos de 1984 e 2013. A área verde escura corresponde à cobertura vegetal da cidade, o traço curvilíneo laranja é o Rio Potengi, já as áreas mais claras equivalem ao território desmatado, sendo as manchas vermelhas nuvens detectadas pelo satélite no momento da captura das imagens. Os dados de 2024 estão em fase de coleta e a etapa mais recente da pesquisa deve ser concluída na metade do ano.

Mapa da cidade de Natal em 1984 com destaque para as áreas verdes I Fonte: Oliveira Alexandre, M. J. de. El clima urbano de la ciudad de Natal (Brasil), aplicando modelos de campo y teledetección orbital. Madrid, 2013. 348 pp Tesis Doctoral. Departamiento de Geografía. Universidad Autonoma de Madrid.
Mapa da cidade de Natal no ano 2013 I Fonte: Oliveira Alexandre, M. J. de. El clima urbano de la ciudad de Natal (Brasil), aplicando modelos de campo y teledetección orbital. Madrid, 2013. 348 pp Tesis Doctoral. Departamiento de Geografía. Universidad Autonoma de Madrid.

Toda a cidade cresceu, horizontalmente e verticalmente. Houve supressão das áreas verdes e não dá pra diminuir isso porque o poder imobiliário é muito grande. Temos muitos problemas de saneamento, mas a questão ambiental também precisa ser uma prioridade. Um centro comercial, por exemplo, não pode colocar todo seu estacionamento sem árvore, praças públicas, as residências com árvores poderiam ter bonificação no IPTU, a população precisa entender que também deve colaborar com a cidade, o conjunto das instituições públicas e privadas, todos esses pequenos detalhes vão contribuir”, avalia o professor do IFRN.

Mapa da cidade de Natal em 1984 I Fonte: Oliveira Alexandre, M. J. de. El clima urbano de la ciudad de Natal (Brasil), aplicando modelos de campo y teledetección orbital. Madrid, 2013. 348 pp Tesis Doctoral. Departamiento de Geografía. Universidad Autonoma de Madrid.
Mapa da cidade de Natal em 2013 I Fonte: Oliveira Alexandre, M. J. de. El clima urbano de la ciudad de Natal (Brasil), aplicando modelos de campo y teledetección orbital. Madrid, 2013. 348 pp Tesis Doctoral. Departamiento de Geografía. Universidad Autonoma de Madrid.

Ilhas de calor

Para a pesquisa, o geógrafo usou imagens de satélite e mediu a temperatura pela manhã, tarde e noite de 51 pontos da capital potiguar durante três anos, quatro vezes ao ano.

O Centro da cidade, as Avenidas Tomaz Landim e Fronteiras, na Zona Norte, e a região entre o IFRN Central e a Avenida Engenheiro Roberto Freire, foram consideradas as mais quentes, as chamadas ‘ilhas de calor’, onde a temperatura é mais elevada, o que provoca maior desgaste físico de quem está nessas regiões devido à pouca cobertura vegetal. Nessas áreas, a diferença de temperatura quando comparadas com as demais regiões da cidade chega a ser de 0,90C até 30C.

“Existe na natureza o efeito estufa, mas o homem, com seu crescimento econômico, está acelerando esse processo, emitindo gases do efeito estufa que provocam o aquecimento do planeta, isso em escala planetária. Na escala local, o crescimento vai provocar o aquecimento da bolha que fica sobre a cidade... a quantidade de prédios, asfalto, automóveis, a verticalização e impermeabilização do solo provocam uma contrapartida, que é o aquecimento. Nos países temperados, como a Suécia e a Rússia, os efeitos das ilhas de calor é até benéfico, porque lá é muito frio. Mas, em cidades de clima tropical, como Natal, resulta nesse desconforto muito grande”, pondera o professor do IFRN.

O professor explica que as diferentes camadas de ar que incidem sobre a cidade funcionam como uma espécie de domo, de bolha. Quanto maior o número de construções, veículos nas ruas e asfalto, maior a quantidade de radiação retida dentro dessa redoma.

“A radiação solar incide sobre as superfícies, sobre o solo, as paredes, o concreto, ela é absorvida e transmitida para a atmosfera urbana, que se aquece. Quanto mais prédio, edifício e concreto, mais aquecimento, some-se a isso todo o maquinário. Natal tem carro demais e o aumento dos automóveis vai elevar a temperatura. Temos um sistema de transportes extremamente precário, que leva a um maior número de automóveis nas ruas, que é um forçador do aquecimento. Quando você soma o crescimento da cidade, mais edificações, asfalto, carros, com a diminuição das áreas verdes, a natureza dá uma resposta, que é o aquecimento. Em Natal esse aquecimento é descontrolado e com tendência a crescer”, alerta o pesquisador.

Para efeito de cálculo, o motor de cada carro alcança a temperatura média de 1000C.

Agora imagine que há milhares de carros nas ruas jogando essa temperatura o dia todo. Tem que diminuir a quantidade de automóveis e aumentar as áreas verdes”, recomenda Malco.

Por falar em carros, um outro gatilho de alerta considerado pelo IPCC é a emissão de Dióxido de Carbono (CO2) na atmosfera.

Em 2018, ultrapassamos 400 ppm (partes por milhão), o quer dizer que os oceanos e a vegetação não vão conseguir reverter a quantidade de gás emitida no planeta. Uma das medidas para mitigar esses efeitos é a criação de uma política permanente de urbanismo bioclimático”, acrescenta.

Áreas de ilhas de calor identificadas na pesquisa I Fonte: Oliveira Alexandre, M. J. de. El clima urbano de la ciudad de Natal (Brasil), aplicando modelos de campo y teledetección orbital. Madrid, 2013. 348 pp Tesis Doctoral. Departamiento de Geografía. Universidad Autonoma de Madrid.

Ilhas de frescor

Para compensar o desgaste produzido pelas áreas construídas, o ideal é a ‘compensação’ por meio de áreas verdes. Enquanto isso, em julho do ano passado, moradores da Avenida Jaguarari foram surpreendidos com o corte de árvores do canteiro central para implantação de um binário. A pista ganhou asfalto novo, mas nenhuma muda nova foi plantada na região.

“Você tem a temperatura do ar e a sensação térmica que, em alguns lugares da cidade, pode ultrapassar os 350C. Quem está dentro de uma sala com ar condicionado está bem, mas quem está n Praça Gentil Ferreira, no Alecrim, no centro da cidade... a sensação térmica é diferente, para quem tá no meio fio, na rua, a sensação térmica é de 380C. Uma criança que está numa escola sem uma boa ventilação, o que é comum na nossa cidade, tem que se hidratar mais, vai sentir desconforto”, exemplifica o pesquisador.

Parque das Dunas, na Zona Sul de Natal

100% urbanizada

Além das poucas áreas verdes, um agravante para Natal é que 100% da cidade já foi urbanizada, ou seja, não há áreas rurais com vegetação intocada.

Toda a área urbana está edificada até os limites com outras cidades Parnamirim, Macaíba, São Gonçalo e Extremoz. São Paulo é uma metrópole enorme, mas com muitas áreas verdes quase como se fossem áreas ruais. Nós não temos áreas rurais, toda área urbana é edificada, Natal já ultrapassou seus limites para as cidades vizinhas, as áreas verdes importantes, como o Parque das Dunas, a região de manguezal do Rio Potengi, Ponta Negra, Parque da Cidade, são as ilhas de frescor, de refrigeração, essas áreas têm que ser extremamente preservadas, senão fosse isso, a cidade estaria ainda mais quente”, aponta Malco.

A dinâmica dos ventos na cidade é outro fator importante. Segundo o pesquisador, até o formato do Parque das Dunas, mais longitudinal, favorece a circulação dos ventos na cidade, o que alivia as altas temperaturas em Natal e diferencia a cidade de lugares mais quentes, como Mossoró.

Os ventos circulam e funcionam como um grande ventilador, o que é a salvação de Natal, porque melhora a sensação térmica. Você pode perceber que quando não há ventos mais fortes, fica extremamente abafado, aquela sensação de sufocamento”, comenta.

Bairro do Alecrim, uma das ilhas de calor em Natal

Plano Diretor

Em 2021, o pesquisador do IFRN foi chamado pela então vereadora Divaneide Basílio para participar dos debates e evitar a ampliação do gabarito de construção durante a votação do Plano Diretor de Natal. Porém, os argumentos técnicos não foram levados em consideração e os parlamentares, conforme o projeto encaminhado pelo prefeito Álvaro Dias (Republicanos), aprovaram as mudanças que permitiram a construção de prédios mais altos.

Aquele era o momento dos vereadores terem dito ‘calma, vamos pensar mais, não vamos aumentar o gabarito de construção que agora é pra toda a cidade. Não vamos aumentar o adensamento, que é um prédio mais perto do outro, vamos aumentar a política de área verde’, porque a resposta estaria ali. Para reverter essa situação atual é difícil. O Plano Diretor deveria priorizar a política ambiental e não a imobiliária e, ao mesmo tempo, é preciso aumentar a área verde da cidade. Natal tem mais de 100 praças públicas, mas a metade ou mais, nem árvore tem”, lamenta Malco Jeiel.

Por 25 votos a favor e apenas 4 contrários, os vereadores de Natal aprovaram alterações no Plano Diretor de Natal que passaram a permitir a construção de prédios com até 140 metros de altura na região do Parque das Dunas. No Plano 2007 eram permitidas edificações com até 6 metros de altura; na Praia do Meio, o gabarito para construção passou de 4 andares (12 metros) para 21 metros na 1ª quadra, para 27 metros na 2ª quadra e até 60 metros na 3ª quadra, com exceção das Áreas de Interesse Social (AEIS).

O Plano Diretor é o documento básico da política ambiental. Um edifício absorve 80% da radiação e libera para a atmosfera, enquanto isso, uma árvore absorve, mas não libera para a atmosfera, ela transforma em energia, clorofila, transpiração, ela é extremamente eficiente para diminuir a temperatura urbana. É preciso uma política séria e constante de plantar árvores, temos alguns projetos, como o ‘Arborize’, inclusive faço parte, mas não pode ser uma política individual, de um Instituto. Isso é pra ontem, uma árvore demora a crescer. Muitas cidades no mundo estão criando as chamadas ‘florestas urbanas’, reservando certas áreas da cidade e replantando micro florestas, que absorvem a radiação, diminuem a temperatura, diminui o ruído, libera de 80 a 100 litros de água na atmosfera e torna a cidade mais agradável, tem também efeito paisagístico, porque o verde descansa”, orienta o pesquisador.

Recentemente a prefeitura até retirou árvores, como no caso da Jaguarari. O Pau Brasil é até protegido por lei, a retirada de uma árvore só deve ocorrer em um caso extremo. Você tem uma rua toda asfaltada, sem área verde...a vizinhança toda vai sofrer com aquilo, inclusive, à noite. Estudos mostram que a diferença de temperatura entre estar embaixo de uma copa de árvore e fora dela é de até 30C”.

Ciclovias

Em Natal, até 2022, havia 90 quilômetros entre ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas. Até o final deste ano, o plano da prefeitura é ampliar esse número para 115 quilômetros. Porém, além do desrespeito de alguns motoristas, que insistem em utilizar as faixas, a pouca área verde e os longos percursos com asfalto exposto direto ao sol desestimulam o uso da bicicleta.

Ciclovia na Avenida Amintas Barros, Zona Sul de Natal

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